Aceito
Falar de um amigo-poeta será, porventura, mais arriscado do que falar dum poeta amigo.
Falar de um amigo-poeta será, porventura, mais arriscado do que falar dum poeta amigo. Incorre-se no risco inconsciente de sobrevalorizar poeticamente a obra do amigo-autor, mas daí não advirá mal ao mundo, nem as capelas da amizade serão um pecadilho numa terra onde o ter se sobrepõe - triste e inclementemente - ao ser.
Quem vê com olhos da amizade tende a acrescentar à obra o beneplácito da afectividade. É Com a consciência nítida deste facto que partimos para a apresentação e lançamento deste "Pedaços do Meu País".Inequivocamente, os nossos pedaços de memória onde regressamos sempre que a saudade em nós se abriga em forma de um rosto aldeão, sulcado nas agruras da vida, num sino, num moinho, numa romaria, numa fonte, no rumor do mar, neste cantar ternurento das evocações poéticas com que Euclides Cavaco nos adoça a memória na relembrança dos espaços míticos e verdadeiros da infância.Tentaremos partilhar no espírito, a emoção de quem arroteia seus versos com a enxada da saudade e o lirismo acendrado dos tenros anos esculpidos na terra donde brotámos ao mundo. Não vamos enveredar em dissecações estético-literárias, nem é este o propósito de quem se propõe participar nesta homenagem que consiste essencialmente em partilhar esta sublimação em verso do autor.Falaremos da sua fidelidade transposta em verso no vero sentir da saudade que emerge prístina e imarcescível nostalgia, ora sofredora, ora dulcificada, pela pena de quem soube cantar com enlevo e obstinado afecto e, nas suas próprias palavras procurou: "glorificar da forma mais sublime, o quanto representam para muitos de nós, as nossas coisas e a nossa Gente que tanto me apraz, aqui cantar."Alguém disse que nunca deveremos negar a fraternidade entre os poetas; nós diríamos que a poesia deveria consubstanciar a celebração da beleza num amplexo fraterno para que a vida fosse mais ventura e menos dor e que ninguém fechasse os olhos ao sonho. Para tal, como dizia o grande e consagrado Garcia Marques, "dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz".Afinal, um texto cuja autoria se desmente, mas não deixa de encerrar fulgurantes reflexões sobre a forma de iluminar humanamente a vida.Quem escreve poesia, qualquer que seja o género, sempre acrescentará ao mundo alguma beleza e, quando a alma embevecida cintila num luzeiro poético, as vibrações telúricas do torrão genésico, só poderemos reafirmar o nosso preito deste franciscaníssimo jeito.Bem haja Euclides Cavaco, pela forma eternecida com que harpejou a saudade da Nossa Terra em versos repassados de nostalgia e candura, que nos embalam em afagos de revivência as memórias suaves, ternas, pungentes e adocicadas do berço que nos moldou para sempre, a sentir português.Sentimento do qual você é arauto infatigável por estas terras gélidas, que se desejariam mais humanizadas num aconchego de límpida fraternidade. Barbosa Tavares